Os dois impossíveis

O que dizem esses olhos, duas azeitonas negras, quando me fitas indiscretamente na solidão da noite, fria e escura, cheia de receios e incógnitas? Finjo não saber o que é, ou talvez isolo essa hipótese na minha mente, ingénua e aterrorizada, que julga não saber nada mas, no entanto, sabe tudo.

Curioso, observas cada gesto meu – dos movimentos mais simples e banais aos mais descabidos: desde um simples sorriso ao constante enrolar de um fio de cabelo entre os meus dedos (fruto de um nervosismo vindo sabe-se lá de onde). Se calhar nem reparaste mas consigo sentir esses malditos olhos cravados na minha nuca.

Vejo-te sem te ver.

Contemplas-me de uma maneira intimidante que me faz querer olhar-te nos olhos. Quem és tu? Será que me ouves? Olho para ti e uma espécie de misticismo envolve-te, numa fumaça de nostalgia e saudade, de um mundo que é teu mas não é nosso. É nesse momento que uma lucidez esmagadora se apodera de mim e evita que seja arrastada para essa fumaça, esse limbo repleto de utopias assustadoras a quererem conviver em sintonia em duas realidades completamente diferentes, em dois mundos regidos por ideais e valores incompativéis. Foi ali, naquele instante, que percebi os dois impossíveis que somos.

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Citação

Tenho tanto sentimento

Tenho tanto sentimento
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
 É a que tem que pensar.

Fernando Pessoa

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El Infinito

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Mirar las estrellas y sentir todo el infinito del Universo dentro de mí, apoderándose de mi alma, alimentando mis sueños que, como él, son infinitos.

Voy a dejar que se muera la añoranza que insiste en tocar el timbre de mi casa, bellaca y llena de recuerdos – de lo que fue y de lo que no fue también – al caer la noche, cuándo los cuerpos se vuelven vulnerables y los corazones esperan, en el silencio de la oscuridad, que la soledad no nos duela tanto.

Voy a darle de beber a la vida y la voy a regar para que en ella crezcan todos mis sueños y ambiciones – aunque por qué nada sucede porque sí, nada es nuestro solo porque estaba destinado a serlo.

El mundo, tal como las estrellas, es finito. Sin embargo, el concepto de la vida no; al igual que el Universo que sigue en expansión. La vida no acaba solo porque nosotros acabamos un día y desaparecemos del mundo finito – todo lo demás se expande, evoluciona, hacía algo que no somos nosotros, algo diferente, y así sucesivamente – hasta que las estrellas que nos iluminaban dejen de ser las mismas y desaparezcan en un universo infinito de otras estrellas, más brillantes, más nuevas, que nos iluminarán hasta que desaparezcamos también, una y otra vez, veces sin cuenta, hasta el infinito de nuestras vidas.

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O Infinito

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Olhar para a estrelas e sentir o infinito todo do Universo dentro de mim, apoderando-se da minha alma, alimentando os meus sonhos que, como ele, são infinitos.

Vou deixar morrer a saudade que teima em bater à minha porta, velhaca e cheia de recordações – daquilo que foi e daquilo que não foi também – ao cair da noite, quando os corpos se tornam mais vulneráveis e os corações esperam, no silêncio da escuridão, que a solidão não nos doa tanto.

Vou dar de beber à vida e regá-la para que nela cresçam todos os meus sonhos e ambições – até porque nada acontece por acaso, nada é nosso só porque estava destinado a ser.

O mundo, tal como as estrelas, é finito. No entanto, o conceito de vida não; tal como o Universo que está em contínua expansão. A vida não acaba só porque nós acabamos um dia e desaparecemos do mundo finito – tudo o resto se expande, evoluí, para algo que não somos nós, algo diferente, e assim sucessivamente – até que as estrelas que nos iluminavam deixem de ser as mesmas e se esfumem num universo infinito de outras estrelas, mais brilhantes, mais novas, que nos iluminarão até desaparecermos também, uma e outra vez, vezes sem conta, até ao infinito das nossas vidas.

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Galeria

Intersezioni – Napoli e Lisbona

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Publicado originalmente em Nicola De Innocentis:
Estratto dalla presentazione della mostra “Intersezioni”, Lisbona, Feb 2016: “Intersezioni” è una mostra del fotografo napoletano, Nicola De Innocentis. Dal 2012 vive a Lisbona e la sua passione per la fotografia ha mitigato la…

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